25.3.07

Marcha Soldado


Foto retirada do site www.caminhodesantiago.com

Pelo lado oposto, ele viria
Pisoteando dragões
De longe era miragem?
De perto: paisagem
Mas vinha...
A passos lagos e de coturno.
Meio anjo e soldado.
Presa na torre de medos: meu fado
De mim saiam lacraias
Lagartos e cobras
Tanto lixo carregado numa mala de emoções
Sinistros tremores e arrepios
E o dragão me assoprava labaredas
De salto corri por becos e alamedas.
Só.
Que sou mulher feita amiúde.
Cheia de detalhes e sombreados.
Crio monstros em castelos.
Mas teço vôos em asas do porvir.
E deles me afugento,
Mas hoje ele vinha do lado oposto.
Soltava raios em nuances de cores que jamais pari.
Assassinava meus temores
E colocou-me na garupa de seus sonhos.
Assim, pude dormir.


Alyne Costa

Brumado, 25 de março de 2007

14.3.07

A Voz do Mistério


Uma voz misteriosa atordoou meus ouvidos. Apresentou-se em várias cabeças. Um monstro? Um anjo? Um arlequim? E falava um idioma novo, recheado de improviso. E emendava idéias, gírias e onomatopéias. Eu? Atônita, tonta e lânguida. Uma centopéia de tamanco passeado no jardim. É que uma voz não se pega, guarda em cofre ou emoldura. E o que a voz diz revela a essência numa doce transparência sem nome, identidade, código ou sinal. Um dia era um cego que via muito bem... Outra vez um entregador de pizzas. E surgia seresteiro... Eu queria sacada, janela e toalha bordada com um jarro de rosas vermelhas como em cidades do interior. A voz saía de um vulcão que explodia em lavas coloridas e me abatia os sentidos. A voz era um bálsamo, um enigma, um desafio... A voz dizia tudo que eu queria ouvir. Quebrou-se em vitral e me mostrou mil faces. Eu? Uma viuvinha carregando folha no jardim. Não sabia quem era o homem.... Seria o homem? Seria a voz? Seria o dito? Seria a voz do homem como um dito, um rito em mim? Quantos eus? De quantos enigmas pode se fazer uma paixão? Bastou-me a voz, música da alma... E, fosse eu Rapunzel, lhe atirava as tranças. Não importava o semblante, a cegueira, a idade, a pena cominada, a careca, a insanidade e a overdose de fugas... Eu queria era pegar carona na nuvenzinha e entrar no seu céu... Porque bastou-me o dito pra entrar na caverna de um desejo. Eu queria na garganta aquela saliva santa que me dizia: Flor, pirâmide e poesia. Misteriosa voz que me fez amar em um só todos os homens do mundo... Os vivos e os mortos. Os santos e os encapetados. Os filósofos e os estivadores Os políticos e os professores. Os artistas e os operários. Os domadores e os trapezistas. Os que foram e os que ficaram. Todos os homens do mundo no armário da minha mente. E eu? Joaninha passeando pelo jardim. Misteriosa voz que acendeu a chama da minha ternura. Por você eu iria a qualquer canto: Índia, Jamaica, beco, gueto ou alçapão. Te levaria lírios na prisão. Te lavaria a batina após a missa. Te abraçaria a nuca e beijaria os lábios... Pois as palavras-canções que jorravam de tua boca caíram todas no lago do meu coração. E eu? Borboleta na caixa vazia da minha imensidão. Espero melancólica... Se eu perdi a voz, você há de arrancar os cabelos.... Se eu perdi a graça, você há de queimar de saudade. E se foi de verdade, tem volta... Que beija-flor não pousa num jardim?


Alyne Costa

Salvador, 2003

11.3.07

Canto Por Elas

Nossa Senhora Desaparecida Entre As Grades By Alyne Costa, março de 2007

Quantas poetas vivem em mim?
Esta insana, religiosa, uma quase beata.
Outra Prost, embriagada e insensata.
Cachaceira, ébria, apaixonada...
Uma que faz versos em redondilhas...
Outra que faz hai-kais e chupa pastilhas.
Uma que faz versos de amor.
Outra: versos de terror.
Poemacabrinhos sobre novilhas, sereias e cabritas.
A alucinada que faz certidão e dá sua fé.
Ai, minha Fé!
Outra que só sobrevive após um café.
Uma que ri histérica, outra que somente acha graça.
Um que vai à boite, outra que senta na praça.
Uma traíra...
Outra Pomba Gira.
Uma seresteira, outra freira.
Uma soteropolitana, outra interiorana.
Uma que morre de raiva e outra que morre de rir
Uma que subiu aos céus
Outra que está por aqui
Uma: de credo e luz
Outra: sinal da cruz
Uma, lavadeira, outra, A Padroeira
Uma que cobra dívida
Outra que deve, não nega e paga quando pode.
Uma que se atreve.
Outra que se comove.
Uma que se cansou e deitou e dormiu.
Outra que mandou o mundo pra puta que o pariu.
Uma obscena, rebelde e sagaz.
Outra tímida, sublime e em paz.
Aquela que traz nos poros e no DNA
A espécie oprimida.
A espécie esquecida.
Todas as liras amordaçadas.
Todos os versos abortados nos porões de um:Cala-te, Mulher!
Todas elas habitam em mim.
Mudas, tristes, solitárias, abusadas, cansadas...
Todas elas me povoam as madrugadas.
Cantando seus tristes hinos.
Seus belos fados.
Suas cantorias.
Seus cânticos de carpideiras.
Seus repentes.
Todas elas de rodilha, levando água pra fonte.
As mais audaciosas criando um novo horizonte.
As mais resignadas, sofrendo, caladas.
Todas elas me habitam e me ressuscitam.
E um baile me levanta na escuridão.
Na bandeja: a cabeça e João.
Espécie mal interpretada, subjugada.
E na minha poesia; todas rainhas.
Deusas de ébano.
Caboclas.
Feiticeiras.
Em meu canto a força do grito oprimido.
O gozo, no prazer, no gemido.
E assim, fêmea, canto por todas.
Por todas que não podem cantar.

Alyne Costa
Brumado, 11 de março de 2007

15.2.07

Pra Moça Triste Que Nunca Casou


Quando entristeço minh’alma cora
Escrevo ora como muda, noutras santa
De certa forma algo me acalanta
Não sei os pássaros que visitam meu muro
Faltam plantinhas
Falta ainda aprender bordar toalhas de sonhos
Falta tanto da mulher que vive em mim
Quando alegreço, surto
Canto cantigas
Disparo a namorar
Faço viagens a reinos não fundados
Peregrino em mim
Em tanta dúvida e correnteza
E as palavras navegam em minha mente
Ela, a palavra me desmente
E rompo rótulos
Mas respeito traduções e rituais
Bruxa ou santa?
Doce ou seca?
Moça ou velha?
O espelho assusta:
Vou ficar uma coisa horrível.
E resolvo passear por Jerusalém
Meu Deus do céu para que tanta cruz?
Bonitos são os sagrados corações –
De Maria e de Jesus.
Coisa boa pra moça velha é passear de cruzeiro.
Coisa boa pra moça velha e preparar enxoval.
Ai começo a cuidar do meu:
Paninhos de ponto de cruz
Toalhas de richiliê...
Muito crochê, lençol branco com as iniciais bordadas.
E começo a trezena de Santo Antônio.
Peço um moço pálido, sem cicatriz.
Um moço sabido e que saiba tocar piano.
Um moço de anel.
E penso nas flores, nas crianças indo ao jardim de infância...
Nas visitas em casa, nas xícaras de café.
Ai me imagino, meu Deus...
Meu delírio é a vapor.
Isso é canto pra moça que nunca casou.
Marido bom a gente inventa.

Alyne Costa

Brumado, 15 de fevereiro de 2007

14.2.07

A Vida

The Dream, Matisse, 1940


Meu gato senta em meu colo e sussurra:
-A vida é curta...
O barulho da motocicleta sugere:
-A vida é ritmo...
O japonês do balcão segreda:
-A vida é lânguida.
No velho rádio Gonzaguinha ainda canta:
“O que é o que é, meu irmão?”
A amiga obstinada chora:
-A vida é o choro do filho que eu não pari!
O irmão diz:
-Relaxe...
O poema de Drummond decreta:
“-A vida é breve e o amor mais breve ainda.”
Mas meu coração...
Ai, esse tolo, sem assunto, sem atenção, grita aos meus ouvidos:
A vida é ele!
Alyne Costa
Brumado, 14 de fevereiro de 2007

8.2.07

Para Todos Os Meus Namorados


Para todos meus namorados malvados:
Obrigada, viraram poesia...
Para os que se tornaram amigos:
Obrigada, viraram poesia...
Para os que se arrependeram:
Obrigada, viraram poesia...
Para os que falam mal:
Mais sensibilidade.
Para os tímidos:
Mais atrevimento.
Para os que se julagaram enganadores:
Mais inteligência.
Para os já casados:
Paciência.
Para os separados:
Prudência.
Para o ex mais recente:
A dúvida latente.
Um e-mail antes de escovar os dentes...
Para o atual:
A força do sol.
A posição de yoga.
O bumba-meu-boi de enfeite nada...
A presença quando fechar os olhos.
Os versos que ainda não nasceram...
O cheiro no travesseiro.
A esteira na sala, a folhinha na cozinha.
O beijo de chuveiro e uma vontade enorme de aprender fazer peixe.
Este homem que me ama enquanto ausente...
Este homem que me protege à distância...
Que me pega no colo.
Que me renasce criança.
Por ele eu aprenderia a cozer.
Coisinhas que mulher moderna tem medo de aprender.
Por ele minhas sagradas horas de preguiças.
Todas as minhas manhas e malícias.
Para todos que foram: Um cheiro.
Para ele: Amor o ano inteiro....


Alyne Costa
Brumado, 8 de fevereiro de 2007

26.1.07

Carta aos Pequeninos


Ai o que chamavam Papai do Céu chegou e disse:
Peixinho não gosta de aquário
Passarinho não gosta de gaiola
Cada um tem um anjinho
Cada anjo, uma sacola
Na sacola levam dor, fome e destruição
Levam tristeza e antipatias
Torpeza e decepeção
Cada povo tem várias cores
Em todo idioma há louvores
O rio deságua no mar
O mar nos oferta o sal
O sol nos aquece ao dia
A luz nos livra do mal
Toda criança é perfeita
Nasceu pra mudar o mundo
Thiago, Francisco, Fedegundo
Letícia, Juliana ou Maria
Nenhuma casa merece ter a panela vazia
Todo canto tem um galo
Que canta quando amanhece
De manhã a vida cura o que a maldade adoece
E o coração de criança é o que canta a esperança
É a alegria da vida na ciranda da dança
E deixo um pequeno recado
Pra todo menino lembrar:
Para esquecer uma dor, importante é perdoar.

22.1.07

Cantando Drummond

Florzinha na beira do caminho by Alyne Costa


... O coração continua
apesar das lágrimas abismais
apesar de não conhecer o canto do rouxinol
apesar dessa tristeza seca
apesar de não ter se usado a palavra adeus
apesar da carne repartida
da carência de mulher parida
da triste sina da solidão
da falta de consolo
das dívidas
das incertezas
dos momentos de aflição
das velas acesas
das consulta aos oráculos
dos 2 mg de olcadil
do filho de férias
do anticoncepcional interrompido na metade
do reveillon em casa
e, apesar de até uma certa falta de esperança:
... o coração continua


Alyne Costa
Brumado, fevereiro de 2007

14.1.07

Quem dera todo menino ter um bichinho


Foto by Alyne Costa - Victor e Scoob

Quem dera todo menino ter um bichinho
Bicho-preguiça, bicho-de-pé
Leão, papagaio ou jacaré.
Quem sera todo menino ser passarinho.
Longe de gaiola e voar até
Quem dera todo menino fosse pastor
De cabra, de palavras e de amor
Quem dera a todo menino a morte nunca viesse
E vivesse peralta na alma do homem que envelhece.

Alyne Costa
Brumado, 14 de janeiro de 2007

6.11.06

Eles


Cada tempo um elemento
Cantor noturno, soturno
Secundarista, de coturno
Mestrando em ciência exata
Físico de conotação abstrata
Bacharel ao léu
Músico do beleléu
Um míope, um agiota
Um cínico, um idiota
Um gemido, outro contraído
Um grito, outro doído
Um breve, um reticente...
Um louco, um demente...
Um rápido, outro ligeiro
Um maio, outro ano inteiro
Um mauricinho, um à toa
Um bem menino, um coroa
Um clandestino, outro miragem
Um peregrino, outro paisagem
Um muito gato, um nem tanto assim
Um apaixonado, um apenas a fim
Todos eles: Na minha mão....
Eu na deles: um alçapão.


Alyne Costa
Brumado, 7 de novembro de 2006

16.9.06

Queda D'água












Queria ser rio, profundo...
Fazer meandros por seus segredos
Ser sempre novo e perene...
Lavando na correnteza seus medos
Correr enquanto o tempo esgota
As rupturar de uma alma febril
Queria ser foz, ilha ou fonte...
E nos mirantes do meu peito aflito
Rabiscar teu nome na areia do infinito
Queria até ser chuva
Lavando tuas costas nuas
Coxas duras, fronte, becos e ruas
Mas a vida fez-me queda d'água
Explodindo em fé...
Acariciando os rochedos das dúvidas
Arrancando os galhos do que não me pertence
De tudo que não sinto...
E depois, talvez, açude ou bacia...
Represa de tanto sentir.


Alyne Costa
Brumado, 13 de setembro de 2006

Foto: Cachoeira do Fraga- Rio de Contas, by Alyne Costa

8.9.06

De Um Certo Entendedor


Mafra e suas aplicações na bolsa de valores-By: Alyne Costa


Não é que eu não entenda esta dorzinha que habita meu peito nas horas
de ir embora...
Entendo também esse dialeto de esperança que falo a cada romper de aurora.
Este zigzag dos dias... Nem todos belos, nem todos castelos.
Entendo um pouco da beleza dos Cânticos e das ladainhas a Nossa Senhora.
Entendo porque padre não casa.
Porque mulher quer filho.
Porque filho quer pai.
Porque pai quer namorada.
E porque namorada quer casar.
Entendo, até com certa maestria, porque alguns destinos tornam-se saudades.
Um pouco de alguns estatutos, de corte e costura e certos passos de ballet.
Sei de rezas pra benzer quebranto.
Minha mão pra planta é uma beleza...
Nadar mesmo, só cachorrinho.
Entendo de ouvir as pessoas, de ser engraçada e de contar mentiras.
Entendo algumas coisas por graça sua, outras por esforço e a maioria por ter olhos de ver.
O que não entendo, meu Deus, é a fragilidade das coisas deste mundo.

Alyne Costa
Salvador, setembro de 2006

28.8.06

Gaiola


Ainda não sei a cor do caminho, mas vou...
Sem pressa, sem medo, sem pacote
E se ele estiver em flor, eu abro um sol
E se estiver nublado, aparo a queda
Eu vou ali comprar um batom
Tirar uma medida
Tomar uma média
E se ele for setembro, eu fevereiro
E se ele chorar, rabisco a lua
E se ele não for?
Eu nem metade
E se ele não aparecer?
Eu, sim, saudade...
E se ele for Caetano, eu canto o Tom
E se for amanhã?
Eu Djavan...
E se não for bem assim?
E se não for urgente?
E se não for prece?
Eu oração....
Eu busco um guia, carrinho de mão...
E se era pra ontem?
Eu já nem sei.
E se acabou?
Precipitei.
E se ele for saturno?
Eu sou de lua...
E se ele nem souber?
Porra, que intua!
E se desistiu?
Não leu os sinais?
Eu corro atrás.
E se for de mármore?
Eu, astronave.
E se voou?
Um novo amor.

Alyne Costa
Brumado, 28 de Agosto de 2006

21.8.06

Insone


Hoje a noite eu não estou conseguindo dormir...
Não é tristeza, nem alegria, nem gripe e tampouco alergia.
Hoje a noite eu fritei na cama, bebi água, deitei na cama.
Bebi água de novo, fritei um ovo.
Hoje a noite eu não estou conseguindo dormir.
Não ouvi música, quase não fumei...
Não brinquei no dicionário.
Não li poesia
Hoje eu perdi o sono, perdi como se perde uma vaga lembrança.
Perdi o sono de tanta esperança.


Alyne Costa
Brumado, agosto de 2006

16.8.06

Quintanista


Ando Quintanista de carteirinha...
Preenchendo de poesia as obviedades da vida!
Vendo poesia nos anúncios de farmácia.
Se me lêem, pois bem...
Se não o fazem, que há de mal?
Mas que escrevam...
Soltem as amarras de suas almas em versos.
A poesia é um antidepressivo sem efeitos colaterais.
E assim... Sinto-me inundada de silêncio.
Lanço olhares profundos ao mundo.
Esta minha alma-gêmea atrasada!
Que faço eu?
Faço versos, oras...
Não posso fazer mais nada.

Alyne Costa
Ssa, 26 de outubro de 2002

15.8.06

Cidade Primavera


Estou numa estrada sem horizonte a frente
Eu sinto faltar asfalto e chão
E meus sapatos dançam nos meus pés
Uma canção de jardim de infância

Preciso de um pouco de sal
Eu sinto falta de pressão
E minha janela não tem vista pro mar...
Tenho apenas vista pra escuridão

Estou numa estrada num velho Opala sem rodas
Meu desejo foi abortado pelos sapos e pelas rãs
Mas eu me sinto inocente e feliz
Eu tenho desejo de algodão-doce

Preciso salvar a vida do meu amigo
Ele é alguém que merece o amor
Ele pensa em ser biólogo e desenha a vida
Eu acredito na forma dele amar

Estou numa estrada pra algum lugar distante
Eu vi a face do sadismo e fiquei feliz
Que bom que nunca consegui ser assim
Eu nunca joguei flexas ao acaso
Eu nunca despedacei corações
Eu nunca vi alguém chorar por mim

Estou numa estrada e levo um menino
Eu estarei forte pra lhe dar abrigo
Eu lhe ensinarei os sinais de um verdadeiro amigo
E só a ele renderei meu amor

Estou numa estrada com chuvas e nuvens violetas
Eu vejo o sol se por no fim das mentiras
Eu vejo as montanhas aparecerem escondendo a hipocrisia
Meu retrovisor traz pintado um escudo

Eu ouço no rádio do carro a voz de um amigo ao telefone, ele está feliz!
Ele antes era mudo porque temia ferir
Ele ligou de cartão e isto é prova de amor.

Eu vejo que é possível percorrer a estrada...
Eu, a criança e o caminho que sonharmos juntos.
Eu vejo que esta estrada em si é um paraiso
E a criança ri de andarmos sem rodas

Estou na estrada e avisto cavalos
Eu vejo belas mulheres nuas sobre os cavalos
E vejo Você, ensandecido, derrubando cavalo por cavalo em sua motocicleta.
E saciando sua sede nas lindas mulheres nuas.

Estou numa estrada e limpo a poeira que cegava
As suas mulheres todas desapareceram
Restou a poeira cobrindo seus olhos
Você me deixou passar e não viu...
Que em cada uma daquelas mulheres havia Eu!

Estou numa estrada e vejo um viaduto
O menino sorri do arco-íris no céu
Reapareceram o asfalto e a sinalização
Vemos a placa: Bem Vindos à Realidade

Estou chegando numa nova cidade
Bem podia ser na Dinamarca porque sinto que há algo de podre no ar...
Mas o que é podre deteriora...

Estou chegando numa nova cidade e é noite
Está cheia de luzes de inspiração,
Cidade Primavera, Cidade esperança, Cidade Gratidão
O menino pede pra comprar doce de leite
E uma velha senhora me oferece margaridas.
Eu lamento, ma ainda não temos dinheiro
Ela apenas ri sem dentes: Estamos numa nova estação.


Alyne Costa
Salvador, setembro de 2002

A Lágrima, o Espelho e Eu


Ainda não deu tempo de ter saudade
Ainda não deu tempo de parar pra pensar
De doer tudo que há pra doer
De chorar quando o leite todo já derramou
Fostes como chegastes: Sem certeza alguma
E assim sem pressa... Sem muita explicação
Restaram-me a lágrima e o fosso da tua ausência
Estou como esta lágrima que rola na face sem timidez
Que cai do meu rosto na rua, em plena multidão
Estou como o lixo escondido embaixo do tapete
Ainda não deu tempo de abrir o gás
Ainda não deu tempo de limpar a casa
De ir embora pra onde der pra ir
De olhar pro lado e ver um riso novo
Sempre fostes metade! Parte tua vagava pelo abismo dos medos
E assim sem pressa... Sem entrega plena...
Restaram-me a lágrima e a cadeia da minha própria liberdade
Estou nas grades sem querer sair
Sem forças ainda pra andar pelas novas estradas acima das montanhas
Restaram-me a lágrima o espelho e eu
Eu... Buscando compreender o que ainda sou
Eu... Buscando dimensionar o que posso ser
Eu... Buscando aprender com o que fui um dia
Restaram-me a lágrima, o espelho e Eu!

Alyne Costa
Salvador, agosto de 2002

Gente Sem Dente


“Gente sem dente
Vivendo contente
Fazendo repente”*
Gente que sente
Vive diferente
Todo mundo contente
Sem o dente da frente!
Gente que sabe viver inocente
Pula na roda da vida gente
Gente que encanta e males espanta da porta da frente.
Desenha um sol poente
Um mundo envolvente
Um sonho crescente
Gente que pinta sorriso na boca da gente sem dente!

Alyne e Hélio Filho
começo de 2001

Aquela Janela


Aquela janela pra vida mais uma ferida cicatriza.
Batemos bem forte nas portas, enquanto de portas abertas, a vida nos espera.
Que o convite ao prazer é a arte de ser paciente.
Esperar sem murchar o sorriso.
Porque a alegria nunca morre.
E é preciso saber sorrir.
Porque a alegria é expressão facial da vida.
E a vida passa pela fresta da porta e nunca está no fim do corredor.
Enquanto meus poros se exaltavam em vão e quantas vezes dilatei a aorta, esquecida que já aberta estava a porta.
Aquela janela pra vida era o meu coração.

Para Alan Andrade, 14/07/92

Labirinto


Fiz teu o reverso do meu verso.
Te fiz cantiga e fecundei teu tom.
E, dissonante, onde te julguei jasmim.
Incensei meu corpo, fada...
Suave aroma de alecrim.
Mas meu cansaço ante a indiferença.
Da melodia sem poder voar
De quem puxa a corda e não deseja o mar.
Tornou-me chaga dessa dor, enfim.
Semeei no asfalto gotas de esperança.
Soltei meus sonhos.
Valsei na contradança.
E sopro de vida de mim saiu.
Que a noite, quando há lua, me conduz a labirintos.
Onde me embebedo só pôr ser luar.
Que toda mulher é também satélite.
E a cada eclipse que me refletiu,
Guardo no peito o girassol aflito,
De um bem-me-quer que não se permitiu.


14/07/92